Aracaju 167 anos |  O Barão de Maruim: um agente de transformação na mudança da capital

Tendo nascido João Gomes de Mello, em 18 de setembro de 1809, no Engenho Santa Bárbara de Cima, freguesia de São Gonçalo do Pé do Banco. Filho do casal Teotônio Correia Dantas e Clara Angélica de Menezes, que segundo Zózimo Lima eram membros destacados da fidalguia rural, cuja zona canavieira de sua propriedade, abrange parte do Rosário do Catete, Pé do Banco, Japaratuba e Santo Amaro das Brotas. [11]            

Ainda criança aprendeu latim, ensinado por um padre-mestre que conduzia as missas na capela que existia em uma das propriedades de seu pai. Quando jovem, assume o comando das terras, por motivo de falecimento dos seus pais. Para Lima, é senhor de bela fortuna, pois que, ao falecer os seus progenitores, senhores de três engenhos, lhes deixaram em dinheiro de contado, cerca de quarenta contos, afora imóveis e semoventes. [12]  Os casamentos são pontos de destaque na biografia de João Gomes de Mello, este fiel aliado do Imperador e defensor fervoroso da monarquia. No primeiro, casa-se com a mãe do Barão de Japaratuba, a viúva Maria de Faro Rolemberg. Em meados de 1852, casa-se com D. Valentina Soares de Souza, irmã do diplomata, jurisconsulto, estadista Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai, que atrelado ao Imperador vai ser peça fundamental no processo de transferência da capital da Província de Sergipe.

Os casamentos são pontos de destaque na biografia de João Gomes de Mello, este fiel aliado do Imperador e defensor fervoroso da monarquia. No primeiro, casa-se com a mãe do Barão de Japaratuba, a viúva Maria de Faro Rolemberg. Em meados de 1852, casa-se com D. Valentina Soares de Souza, irmã do diplomata, jurisconsulto, estadista Paulino José Soares de Souza, o Visconde do Uruguai, que atrelado ao Imperador vai ser peça fundamental no processo de transferência da capital da Província de Sergipe.            

Na política, já na década de 40, do século XIX, é atrelado ao Partido Camondongo, onde inicia o seu trajeto de político influente, detentor de vários títulos e cargos de expressão no Império e principalmente se destacar como a grande liderança política em Sergipe e na côrte. Em 1848 torna-se deputado da Assembléia Provincial, mesmo ano em que é agraciado com o título honorífico de Barão, tornando-se o Barão de Maruim. Em 1853 se encontra como Deputado na Câmara Geral, onde obteve a cadeira cativa em mais duas legislaturas. Foi ainda vice-presidente da província de Sergipe, comandante superior da Guarda Nacional e por carta imperial de 02 de maio de 1861, nomeado Senador. Recebeu ainda condecorações da Ordem do Cruzeiro, da Rosa e de São Gregório de Magno, em Roma, graças as representativas doações a instituições de caridade, a Igreja Católica, a instituições culturais, órgãos de imprensa e escolas públicas.[13] Por algumas vezes representou o Brasil na Europa, com credenciais de ministro.

Liderança expressiva, comandou o Partido Liberal, juntamente com o Barão de Própria, que em Sergipe neste momento foi denominado pelos Conservadores – os Rapinas – de Camondongo e em 1846, quando os rapinas assumem o poder na Província de Sergipe, iniciam uma perseguição aos seus adversários que leva ao exílio dos seus principais líderes.  No ano seguinte, retornando a Sergipe, já que o revezamento constante no comando das Províncias era uma prática comum no Império, organizaram uma dissidência no seu partido, à qual denominaram de Bagaceira, tornando-se Rapina no novo período do predomínio do Partido Conservador.  Com o recuo do Partido Conservador, a partir de 1855, desaparece o Partido Rapina em Sergipe. Em 1856, o Camondongo dividiu-se, os remanescentes criaram o Partido Liberal, e a ala dissidente gerou o Partido Saquarema, que se dizia conservador, e era liderado pelo Barão de Maruim.[14]            

Inácio Barbosa assumiu o governo da Província de Sergipe em 1853 e como grande marco do seu governo se tem a mudança da capital da província. Justificativa para um projeto tão audacioso, já que a mudança se daria para uma região de praias, pântanos e bosques, onde uma cidade seria construída para recepcionar os três poderes e os seus primeiros habitantes, ter a necessidade emergencial em desenvolver a prosperidade na província e procurar desatar os laços de dependência com a Bahia, ciente que o desenvolvimento da província dependia de um porto para facilitar o escoamento da produção. Apesar de várias cidades em Sergipe estarem desenvolvidas econômica e socialmente, faltava essa facilidade, que foi encontrada nas praias do Aracaju. Segundo Soutelo, a partir de 1854, Inácio Barbosa começou a colocar em prática o plano de mudar a capital de Sergipe. Transferiu órgãos públicos para a praia do Aracaju (praia do Bairro Industrial), perto da foz do Rio Sergipe, já visando o surgimento do porto. Sergipe é uma província pequena e pobre, não se pode dar ao luxo de gozar de uma capital e um porto marítimo, separadamente, justificava ele.

Em 2 de março de 1855, a Assembléia Legislativa da Província já abria seus trabalhos no Engenho Unha do Gato, localizado na Barra do Cotinguiba. Imediatamente foi apresentado o projeto elevando o povoado Santo Antônio do Aracaju à categoria de cidade, e transferindo para ele a capital da província. Essa atitude pegou os deputados de surpresa, deixando perplexos até os da situação.A idéia de transformar em capital um povoado cheio de areais e de brejos não agradava os deputados. Em 17 de março de 1855, o Presidente da Província de Sergipe, Inácio Joaquim Barbosa, sancionava a Resolução nº 413 que em seu artigo 1º dizia: “Fica elevado à categoria de cidade o Povoado Santo Antônio do Aracaju, na Barra da Cotinguiba, com a denominação de cidade do Aracaju” e em seu artigo 4º “fica transferida desde já da cidade de São Cristóvão para a do Aracaju a capital desta província”. Percebe-se pelo exposto que a idéia de mudança da capital das províncias não era uma novidade na década de 50, do século XIX e as tentativas desta transferência em Sergipe, também não. Em 1832, o Comendador Sebastião Gaspar de Almeida Boto pleiteava a transferência para Laranjeiras, mas não obteve êxito. Segundo Lima, desde a década de 40, quando João Gomes de Melo, o Barão de Maruim, figurava na Assembléia Geral, planejava a mudança da capital para as “praias mefíticas do Aracaju”. O que é confirmado em outras palavras por Bonifácio Fortes “a mudança resultou de um plano traçado previamente”.[15]

Zózimo Lima afirma que o Barão precisaria de um “homem de pulso para auxiliá-lo na sua realização”. Em 1853, o Barão se encontrava pela primeira vez, “fazendo íntimas relações”, na Câmara Geral, com o Dr. Joaquim Inácio Barbosa, que ali tinha assento como suplente substituindo o magistrado André Bastos de Oliveira, deputado pelo Ceará. O Barão já era nesse tempo casado em segundas núpcias com Valentina Soares de Souza, irmã do Visconde do Uruguai. Segundo Lima, “por intermédio do Visconde, seu cunhado e do imperador, consegue o Barão trazer a Sergipe como presidente da província Inácio Barbosa que naquele momento tinha funções na Fazenda Pública”, assumindo o governo de Sergipe em 17 de novembro de 1853. Sebrão Sobrinho diz que Inácio Barbosa não passou de um caixeiro do Barão, alguém que só fez executar as suas ordens, “que feitor adorável teve o futuro Conde sergipense” e o adjetivou ainda de “ave de arribação e delegado de gabinete”.[16] Visão que é criticada por diversos autores da historiografia sergipana como o padre Aurélio Vasconcelos e Bonifácio Fortes.[17] O Barão inegavelmente apoiou o presidente Barbosa, dois fatos comprovam essa afirmação. O trabalho político de preparação dos deputados provinciais possibilitou a maioria da Assembléia além de manter “coeso e ordeiro o seu partido no apoio ao presidente”, em um período que no Brasil se instalava a política de conciliação entre os partidos. E também as gestões junto à Corte para a aprovação da mudança da capital.

Os próprios planos da mudança da capital foram executados no engenho Unha do Gato, que pertencia ao Barão de Maruim. Juntamente com Inácio Barbosa convocou uma reunião com os deputados que considerou de importância fundamental para a província. Para Fortes, somente três deputados se opuseram na seção aos planos do presidente e do Barão, “ficou determinado tudo no Unha do Gato”.[18]

A Câmara Municipal de São Cristóvão ainda escreveu uma carta em sinal de protesto à transferência da capital: “V. Excelência é o único responsável pelo derramamento de uma só gôta de sangue sergipano que se derramar possa, quando o povo, considerando o completo extermínio de sua capital, perca a natural razão e docilidade de que é dotado”. As armas mais fortes utilizadas pelo povo revoltado de São Cristóvão foram às palavras escritas em inúmeras quadras recolhidas nas ruas do município. Em uma delas mostra bem como os patriotas cristovenses sabiam da influência do Barão de Maruim na transferência da capital para as praias desertas do Aracaju e demonstra, na visão deles, a verdadeira posição de Inácio Barbosa que no texto aparece como “catinga”, devido a sua cor parda, sempre seguindo um caminho trilhado pelo seu mentor: o Barão tá no inferno/ Batista na profunda/ O Catinga vai atraz/ Com cofre na cacunda.

As causas para tanto interesse do Barão no âmbito pessoal se justificavam, pois o eixo político coincidiria com o econômico, ou seja, transferiria a sede do governo para a região da Cotinguiba, na qual ele era o principal senhor de engenho, o que possibilitava o aumento do seu poder econômico e conseqüentemente a sua influência política na província. Clodomir Silva vê no projeto da nova cidade a derrota dos senhores do vale do Vaza Barris no âmbito comercial e político e a força dos senhores do vale do Cotinguiba, liderados pelo Barão de Maruim.[19]

“Vitória exclusiva do Barão de Maruim, a transferência da capital, o qual teve como instrumento e colaborador o presidente Inácio Barbosa”, essa frase resume o pensamento de Zózimo Lima sobre o fato principal descrito nesse texto. Ele acredita ser a mudança da capital um “capricho do Barão” que para demonstrar força política aos seus opositores e beneficiar a sua situação financeira procurou buscar tal feito.

Por Denio S. Azevedo

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