ESPECIAL | Como Maruim enfrentou outras epidemias em 166 anos

Em meados de 1855 a sociedade sergipana foi atingida de forma violenta pela maior tragédia sanitária de sua história: a primeira grande epidemia de “Cholera Morbus”, que vitimou perto de 30 mil almas, em menos de quatro meses.

Os navegadores árabes e europeus conheciam a existência, nos grandes deltas da Ásia meridional, de uma doença a que se dava o velho nome grego de Khoera, isto é, ‘fluxo de bílis’. A doença se espalhou pelo mundo (Pandemia) e chegou a Sergipe.

A Cholera associa uma diarreia profusa a vômitos incoercíveis, placas azuladas no corpo e um emagrecimento rápido. O doente morre de desidratação nalguns dias ou nalgumas semanas; podem também dar-se casos de morte súbita.

Em 14 de setembro de 1855, a terrível pandemia aparece na Vila de Nossa Senhora dos Campos do Rio Real (Tobias Barreto). Era a chegada do grande mal a Sergipe.

O Presidente da Província, Dr. Inácio Joaquim Barbosa, havia falecido em Estância, no dia 06 de outubro de 1855, vítima da febre palustre (malária).

Em seu lugar, tinha assumido interinamente o 3º Vice Presidente, José da Trindade Prado.

Baseando-se nos relatórios do Provedor de Saúde, Dr. Joaquim José de Oliveira, o Presidente da Província tomou algumas providências contra a ameaça da cólera, uma vez que a epidemia já grassava violentamente na Província da Bahia.

Em presença do perigo eminente e da escassez e penúria dos chofres públicos, dado a inexistência de polícia dos portos, falta de boticas e médicos, o Presidente Interino, pôs em quarentena as embarcações procedentes dos portos onde houvesse a epidemia.

Essa medida foi ineficaz, pela completa inexistência de lazaretos onde se pudesse executar a quarentena. Avançou-se para a total proibição de entrada de tais embarcações nos portos sergipanos.

Essa medida foi um desastre, não impediu a chegada da cólera, que acabou entrando pelas fronteiras terrestres, e isolou Sergipe do resto do País. Como a maior parte dos víveres vinham da Bahia, agravou-se a situação de fome que, associada à Peste, tornaram as consequências insuportáveis.

O Presidente nomeou uma comissão de três médicos, um para Estância, o Provedor de Saúde, Dr. Joaquim José de Oliveira; outro para São Cristóvão, o Dr. Francisco Sabino Coelho Sampaio; e um último para Aracaju, o Dr. José Antonio de Freitas Júnior, que seriam responsáveis pelas medidas de prevenção.

As medidas não surtiram efeito e a fome, decorrente do fechamento dos Portos, foi duramente criticada.

O líder político, João Gomes de Melo (Barão de Maruim), retorna do Rio de Janeiro, onde exercia o mandato de Deputado, e assumiu a Presidência do Estado (25/09/1855), para enfrentar a dura epidemia.

O Barão de Maruim, logo percebendo a gravidade do fechamento dos portos, manda reabri-los imediatamente (28/09/1855). Entretanto, a medida já tinha causado seus principais efeitos, e Sergipe passará pelo inferno da Peste praticamente isolado do restante do País.

O Barão tentou enfrentar a Peste mandando construir lazaretos, para abrigar os pobres e indigentes atingidos. Ficando evidente a necessidade da construção de hospitais de caridade, pois sua ausência é constantemente lamentada.

O Barão procurou nomear médicos para os locais mais importantes, mas encontrou dificuldades dado o seu pequeno número na Província.

Exausto os cofres, sem médicos, sem medicamentos, sem autoridades enérgicas e, ao mesmo tempo, a epidemia assolando. Outra dificuldade foi o abandono dos cargos por parte das autoridades, o pavor levava ao desespero, ao cada um por si, à fuga.

Disse o Barão de Maruim:

“Tive por tanto em tais condições de lançar mão de curandeiros para alguns pontos menos populosos e que menos sustos inspiravam, a espera que me chegasse os socorros de dinheiro, médicos, remédios e alimentos, que havia solicitado ao Excelentíssimo Presidente da Bahia.”

“Em 12 de novembro de 1855, chegou o vapor Santa Cruz, como ajuda mandada pelo Governo da Bahia. Chegaram nesse vapor uma caixa de medicamentos, os médicos Tristão Henrique Costa, João Francisco de Almeida, e os acadêmicos Bemvenuto Pereira do Lago, João Ribeiro Sanches, Manoel Antonio Marques de Farias, Manoel Nunes Affonso de Brito, Leandro Carlos de Sá, Cândido do Prado Pinto e Manoel Francisco Teixeira.”

Em 22 de novembro chegou ajuda da Junta Central de Higiene, medicamentos e mais dois facultativos: o Dr. Tobias Ferreira Leite, sergipano residente no Rio de Janeiro, que se apresenta para prestar socorro gratuitamente, e o Dr. Augusto Francisconi, contratado por ordem do Ministro do Império.

Dos médicos residentes em Sergipe, o Dr. Antonio da Silva Daltro foi nomeado para a vila de Campos (atual Tobias Barreto); os Drs. Pedro Autran da Matta Albuquerque e Manoel Antunes de Salles para a Vila de Lagarto; o Dr. Francisco Jacinto da Silva Coelho para Riachão; os Drs. Francisco Alberto de Bragança e José Cândido de Farias para a cidade de Laranjeiras e o acadêmico José Lourenço de Magalhães para o distrito de Lagoa Vermelha (atual Boquim).

O Dr. Francisco Sabino Coelho de Sampaio, permaneceu em São Cristóvão. Aqui ocorreu um fato interessante: o Hospital de Caridade existente na cidade se recusa a receber os presos, com a alegação que eles eram coléricos, obrigando ao delegado estabelecer uma enfermaria junto à cadeia.

Em Itabaiana, atuou o Dr. Manoel Simões de Mello, que pouco pôde fazer, uma vez que a população daquele município, tendo em vista o abandono das autoridades, fugiu para as matas e serras vizinhas, não se encontrando quase ninguém no centro da vila. O grave é que a doença atacou nos grotões onde a população se escondia, ficando difícil até contar o número de mortos.

A solução sensata era fugir. Sabia-se que a medicina era impotente e que ‘um par de botas’ constituía o mais seguro dos remédios. Desde o século XIV que a Sorbone aconselhava aos que podiam que fugissem ‘logo, para longe e por longo tempo.

Em apenas quatro meses, a Peste tinha deixado um terrível rastro de sangue na Província de Sergipe.

Apesar de vários cadáveres terem sido sepultados nos pastos dos engenhos, nos campos e estradas, em locais onde não foi possível se ter informações. Várias localidades não prestarem nenhum tipo de informação, como foi o caso de Maruim e Santa Rosa onde o número de vítimas foi muito grande.

Não será exagero estimar uma mortandade superior a 30 mil pessoas, num pequeno espaço de tempo de aproximadamente quatro meses, numa população com pouco mais de 200 mil pessoas.

A relação oficial da mortalidade causada pelo Cholera Morbus, na Província de Sergipe, desde meados de setembro de 1855 a janeiro de 1856, constante no Relatório do Barão de Maruim (27/02/1856).

Cidade de Laranjeiras – 3.500 óbitos; Vila de Lagarto – 1.374 óbitos; Vila de Socorro – 1.306 óbitos; Vila de Propriá- 1.246 óbitos; Vila de Capela – 1.000 óbitos; Vila do Rosário – 925 óbitos; Cidade de Estância – 890 óbitos; Vila de Itaporanga – 852 óbitos; Freguesia do Pé Branco – 686 óbitos; Vila de Simão Dias – 506 óbitos; Vila Nova do Rio São Francisco – 491 óbitos; Vila de Itabaiana – 338 óbitos; Freguesia da Pacatuba – 311 óbitos; Cidade de São Cristóvão – 300 óbitos; Missão da Japaratuba – 297 óbitos; Vila de Santo Amaro – 275 óbitos; Vila de Itabaianinha – 201 óbitos; Capital do Aracaju – 142 óbitos; Vila de Santa Luzia – 134 óbitos Vila do Espírito Santo – 132 óbitos; Vila de Nossa Senhora dos Campos – 89 óbitos; Freguesia do Campo do Brito – 66 óbitos; Arraial dos Pintos – 66 óbitos; Barra dos Coqueiros – 46 óbitos; Vila de Divina Pastora – 20 óbitos; Distrito dos Enforcados – 19 óbitos.

Por Antonio Samarone

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