Uma Pandemia Sob o Olhar de Um Maruinense | Por Hefraim Andrade

Uma Pandemia Sob o Olhar de Um Maruinense

            Há alguns dias, nós, judeus, entramos no mês de Nissan, mês da nossa Festa anual de Pêssach, época em que relembramos e celebramos a nossa saída da terra do Egito e todas os acontecimentos anteriores a isto, como a incidência das dez pragas enviadas por nossa Divindade, bendita seja, sobre aqueles que, naquele tempo, nos oprimiram a nós. Pragas que temos noção serem fortemente nocivas aos seres humanos, como piolhos e doenças de pele, que, embora sejam discussões da esfera religiosa, servem como fonte e exemplo de que as doenças causavam e causam grande impacto nos grupos humanos, como a própria peste negra, na Europa, que mataria mais de 10 milhões de pessoas em alguns meses, no ano de 1348 (CARDOSO, 2006).

            O fenômeno das doenças nunca foi um assunto desconhecido de nossa pequena e tão conhecida cidade, que queda cerca de trintas quilômetros da capital do Estado, Aracaju. As fontes históricas e mesmo objetos aqui encontrados, como os relatos de uma senhora de língua alemã que aqui vivera, no século dezenove, e algumas botelhas que continham água Inglesa e francesa para a convalescença de algumas moléstias, são prova disso. À minha infância, cansava de ouvir falar de certa senhora que morrera do cólera e que não pudera ser sepultada em nosso cemitério local e atual, o Cruzeiro do Novo Século.

            Segundo uma carta datada de 17 de abril de 1863, escrita pela dita senhora, que trata-se, na verdade, de Adolphine Schramm, que veio ao Império brasileiro e por consequência para esta cidade da Cidade Livre e Hanseática de Hamburg, no norte da atual Alemanha, a cidade de Maruim sofreu muito com a presença do cólera – doença transmitida por intermédio da água contaminada.

Todo pequeno negócio, toda oficina, tudo está parado e, também há três ou quatro semanas atrás, minhas três lavadeiras disseram-me que não podiam lavar nenhuma roupa.

Ficamos policiando os escravos em nossos postos, a fim de que não se deitem nem nas pedras nem no chão úmido, não deixem a casa escondido e não utilizem comida que possa fazer mal. O calor é terrível, e a seca já destruiu qualquer perspectiva de nova colheita. Agora fala-se que não vai haver verduras. Nisso, contudo, não quero acreditar ainda, pois algumas pessoas ficam satisfeitas em atrair o azar.1

            Imagineis, pois, como deve ter sido a vida dos nossos cidadãos de outrora, quando algo do tipo começou a fazer suas primeiras vítimas? Quanto a sua proliferação, embora não pretenda deter-me muito no assunto, aprendemos ainda:

A partir de 1850, a navegação a vapor e o transporte ferroviário intensificaram os deslocamentos populacionais e as trocas comerciais. Das antigas rotas brotavam outros cursos da doença. O Brasil não tardaria a incluir-se nos novos itinerários. […] Não tardou para que outras cidades costeiras fossem atingidas: em julho, Salvador, Bahia, foi acometida. Em poucos meses a doença começou a gravitar entre os portos de Salvador e o norte do País: em 1856 a epidemia já alcançara as Províncias de Sergipe, Alagoas, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco.2

            Ao deixar um pouco as temáticas “século XIX” e “cólera”, desejo agora passear, convosco, sobre o presente e discutir sobre um novo inimigo, o COVID-19, conhecido também como coronavírus, malatia que, segundo o Ministério da Saúde, pertence a uma família de vírus que causam infecções respiratórias, descoberto em 31 de dezembro de 2019, após casos registrados na China. A enfermidade, na China, segundo o G1, matou 3.309 pessoas, e, nos EUA, 3.416. Na Itália, segundo a Agência Brasil, são 12.428 vítimas. Já no Brasil, o G1 registra 200 mortos e 5.710 infectados, dentre os quais, em Sergipe, temos, 20 infectados, segundo apurações do Maruim e Pauta – dados, sem dúvida, alarmantes.

            Muitos decisões precativas foram tomadas para tentar minimizar os impactos dessa doença terrível, como o isolamento, o uso de máscaras e de álcool em gel. Em Maruim, por exemplo, o poder público decretou estado de emergência em saúde pública. Aulas das redes municipal e estadual e atividades na Delegacia e no Conselho Tutelar foram suspensas por quinze dias. De igual forma o funcionamento do Templo de Luz (O Gabinete de Leitura) foi suspenso em 18 de março, também por 15 dias.

            O comércio também foi atingido, principalmente em nossa feira semanal, que dá-se aos sábados. Em fotografias, com grande admiração, vi o quanto acabou reduzida para atender ao acautelamento necessário disposto em decreto do chefe do Executivo. – Automaticamente fui levado ao espaço das memórias do qual extraí a recordação do quão grande, diversificada e falada era nossa feira… A suntuosa Paróquia Senhor dos Passos, erguida com recursos do Barão de Maruim (1809-1890), ao atender a um decreto do Arcebispo Metropolitano de Aracaju, cancelou, no dia 20, todas as missas; quase tudo parou, por assim dizer. Que momento tão penoso este o que estamos a viver!

            Faz um bom tempo não saio pela minha amada rua da Cancela. Não sei o que é visitar os nossos velhos prédios, os da rua defronte para o Parque Público Otto Schramm, nosso antigo consulado. Não sei mais o que é caminhar, como de costume, ao lado do rio Ganhamoroba, dos tamarindeiros (Tamarindus indica) assentados no percurso, e tampouco ouço o trinado dos bem-te-vis, ou vejo suas cores, e também as flores maruinenses – a Chanana (Turnera ulmifolia), o mimo-do-céu (Antigonon leptopus), e os flamboyant (Delonix regia) que estão às nossas praças principais. Faz tempo não vejo um único oitizeiro (Licania tomentosa); que não ouço o ruído dos transeuntes que passavam em grande número diante da residência de minha tia, com suas vozes moderadas, às cinco da manhã, ou os “gritos” dos jovens que vêm das várias instituições de ensino, assim como a voz da amiga Sônya Maynart, detalhe indissociável da rua em que residimos…

            Eu tenho saudade de tudo isso e também de abraçar e visitar meus amigos e colegas, de tocá-los com o terno contato corporal que tanto caracteriza-nos como brasileiros. Tenho saudade de “passar rapidamente” no Gabinete de Leitura para ver como andam as coisas; de saber sobre as novidades, durante a noite, na praça Barão de Maruim. – É inevitável não pensar nestas coisas! É é de longe impossível tirá-las do cerne da mente de um maruinense! Não dá para não viajar mentalmente, enquanto confinados em nossos lares, pelas boas lembranças que temos; pelos cenários que aprendemos a reconhecer e a amar, nalguns casos, desde a mais tenra idade… No que me toca, sou inundado, dia após dia, minuto após minuto e segundo após segundo, por uma lírica que canta, quase que involuntariamente, poesias sobre o Porto Velho, sobre os estrangeiros que colonizaram esta região, sobre a vinda de Suas Altezas Imperiais e Reais Dom Pedro II e Tereza Cristina, em 1860; sobre o que resta da antiga estação de trem, sobre as paisagens naturais adjacentes às linhas férreas, sobre os vultos que conheci e logo o nosso Hino: “As margens do bravio Ganhamoroba foi crescendo enterras de um engenho de outrora”… -É improvável não devagar!

            Por fim, diante de tudo que vos trouxe, embebido em tristeza e saudosismo, e por desejar ver, ouvir e experimentar tudo o que julgo bom e proveitoso novamente, rogo que cuidemo-nos e que tomemos todas as precauções cabíveis e possíveis estabelecidas pelos órgãos governamentais competentes para que nos seja devolvida a liberdade que dantes tínhamos e que lastimamos agora não tê-la. É preciso estarmos cônscios do que ocorreu na História da Humanidade para entendermos como fatos passados afetam-nos no presente, e atentarmo-nos para que não incorramos, assim, em erros passados graves e desnecessários, se observarmos com um pouco mais de cuidado. Temos, pois, a oportunidade de recorrer, se o desejarmos, a fé que possuímos (respeitada, aqui, seja a diversidade étnica e religiosa). Recomendo semelhantemente, uma boa leitura, conversas levadas a cabo no ceio familiar ou pelas redes sociais, e também toda sorte de passatempos, etc. A aguardar, com uma esperança mais viva do que a que tive ontem, que tudo que ora nos angustia haverá de ter um fim.

-Até a próxima.

L^

Bibliografia:

CARDOSO, Oldimar Pontes. História hoje: manual do professor/Oldimar Pontes Cardoso; cartografia Allmaps. – 1. Ed. – São Paulo: Ática, 2006. p. 253.

Citações:

1Cartas à Maruim. UFS/NUCA – 1991. p. 36

2SANTOS, Luiz Antonio de Castro. Um Século de Cólera: Itinerário do Medo. PHYSIS – Revista de Saúde Coletiva. Vol. 4, N° 1. 1994. p. 84.86.

Fontes Eletrônicas:

https://coronavirus.saude.gov.br  Acesso em 31 de março de 2020.

https://g1.globo.com/google/amp/mundo/noticia/2020/03/31/numero-de-mortes-por-covid-19-nos-eua-ultrapassa-o-da-china-ghtml Acesso em 31 de março de 2020.

https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2020-03/aumenta-o-numero-mortos-por-covid-19-por-dia-na-italia  Acesso em 31 de março de 2020.

https://g1.globo.com/google/amp/bemestar/coronavirus/noticia/2020/03/31/caos-de-coronavirus-no-brasil-em-31-de-março.ghtml Acesso em 31 de março de 2020.

| Hefraim Andrade é ativista, escritor, membro fundador da Academia Maruinense de Letras e Artes e integrante do Cumbuka Coletivo Cultural. | 

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