Uma Dívida de Gratidão | Por Hefraim Andrade

Uma Dívida de Gratidão | Por Hefraim Andrade

Quando adentramos ao vasto campo da historiografia, notamos o esforço de alguns em registrar, ou melhor, congelar, um ou mais fragmentos de um período vivenciado. Neste contexto, vemos homens como Heródoto de Halicarnasso (484-420 a.C), Tucídides (460-395 a.C.) e Giorgio Vasari (1511-1574) destacando-se nesse mister; homens que acabariam sendo referência no estudo da História, e que nela, sem dúvida, não passaram desconhecidos.

Hefraim Andrade e Lúcia Marques | Foto: Arquivo pessoal

Não obstante disso, e num contexto não europeu, seguimos para uma pequenina cidade localizada no Estado de Sergipe, no Brasil. Uma cidade que prosperou, no século XIX, no cultivo da cana-de-açúcar e do algodão, trazendo, com efeito, altos lucros para a então província de Sergipe, e, desse modo, vários investidores e imigrantes estrangeiros. Nesta terra, chamada ‘Maruim’, nasceu o senhor Joel Macieira Aguiar (1905-1995), juiz e destacado cronista, responsável por registrar muitos dos aspectos da história maruinense, sem cujo esforço e amor, não seria possível termos o conhecimento que temos de nosso município, e de igual maneira sobre o Gabinete de Leitura de Maruim, ao qual chamava intimamente de ‘Templo de Luz’. Portanto, para mim seria um crime não reconhecer os seus feitos cavalheirescos e não dar-lhe a devida gratidão.

Apesar disso, é meu dever esclarecer que não somente ele trabalhou arduamente para a salvaguarda de nossa memória, pois, no mesmo solo, a 07 de março de 1950, nascia a filha do conhecido “barbeiro historiador”, o senhor Adalberto Cruz, que ouvindo os discursos laudatórios de seu pai, desenvolvera a noção do valor que cada canto, do lugarejo nascido “às margens do bravio Ganhamoroba”, como salientou Wilson Dias de Mattos, em nosso Hino, detinha. Cada uma de suas ruas e principalmente as que quedam adjacentes à Praça da Bandeira, foram testemunhas de suas andanças e principalmente de sua incansável curiosidade.

Particularmente, eu a conheci, ou melhor, dela já ouvia falar, quando, no armário rústico que havia em nossa casa, minha tia guardava um livro branco, com a fotografia de um homem bem-vestido, – o Barão de Maruim –, acerca do qual dizia-me, aos cinco ou seis anos, que quem o escrevera foi “Lúcia Marques”. Meus olhos brilhavam ao folear cada uma daquelas páginas em preto e branco e que continham a informação de mulher alemã que falecera e jazia fora do cemitério local. -Aquele livro provocou, em mim, o acendimento de uma chama que até hoje nunca apagou, e também o eclodir de um espírito inquieto que até o presente não amainou-se. Daquele momento em diante, eu sabia, internamente, que iniciar-se-ia uma grande, longa e solitária jornada pelo passado. Jornada que formou grande parte daquilo que sou.

Maria Lúcia Marques Cruz e Silva, a “menina curiosa”, bióloga de formação, professora, escritora, pesquisadora pela Universidade Tiradentes (UNIT), presidente da Augusta e Benemérita Academia Mruinense de Letras e Artes e integrante da comissão do bicentenário de Sergipe, foi a autora do Inventário Cultural de Maruim (1994), – seu Magnum opus em comemoração aos 140 anos da emancipação política local. – Nele, estão congelados vários momentos de nossa sociedade: a história, a economia, a educação, a cultura, a religião, entre tantos outros assuntos não menos importantes, de uma sorte tal, que é impossível saber, de modo aprofundado, sobre a temática “Maruim” sem consultá-lo ou ainda sem consultar outras de suas obras como sua dissertação sobre a Revista Literária do Gabinete de Leitura de Maroim (2006), e suas publicações em parceria com o Magnífico Jouberto Uchôa de Mendonça, Educadores de Sergipe à Luz da República e Maroim nos Planos da Província de Sergipe (1846): Um Olhar sobre a Planta de João Bloem, em 2017 e 2019, respectivamente.

Inúmeras crianças, adolescentes, jovens e pesquisadores, ano após ano, direcionam-se ao Gabinete de Leitura de Maruim, em busca dessas informações tão indispensáveis para a construção ou reconstrução de cenários distintos. E, hoje, em seu 70° aniversário natalício, desejo, na qualidade de escritor e estudante de Museologia pela Universidade Federal de Sergipe, graças, em parte, a sua influência, em nome de todos os integrantes da Academia Maruinense de Letras e Artes, das crianças da minha geração e dos demais residentes da cidade de Maruim, reconhecer e agradecer a senhora Lúcia Marques por todo esforço abnegado e por todo amor ofertado à Maruim, no decorrer de todos esses anos.

À LÚCIA MARQUES

Quando tenho de falar de Memória,

A memória da cidade de Maruim,

É impossível não falar da história

Que Lúcia Marques legou a mim

Através de seu exemplo vivido e

Por meio do Inventário Cultural,

Que é a grande honra dessa cidade,

Outrora conhecida Vila Real.

Por ele sabemos sobre Zé Maia,

Sobre os Wynne e os Schramm.

De modo que nada disso nos caia

Em duro esquecimento amanhã.

Por isso há uma dívida a pagar

Uma dívida de grande gratidão.

Uma a Joel Macieira Aguiar

A outra, com singular sobejidão

À Maria Lúcia Marques, um pilar,

Dos poucos que os tempos terão!

ANDRADE, Hefraim.

Rua da Cancela, Maruim/SE

07 de março de 2020.

L^

| Hefraim Andrade é ativista, escritor, membro fundador da Academia Maruinense de Letras e Artes e integrante do Cumbuka Coletivo Cultural. | 

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